No mesmo dia em que se anunciavam os últimos números do desemprego – importa dizer que mais de um milhão de portugueses estão sem trabalho apesar de estarem em idade activa – a CGTP anunciava mais uma Greve Geral e umas quantas manifestações – a promovida pela Confederação Europeia de Sindicatos a 29 de Feevereiro, a dos jovens no final do mês de Março e a das Mulheres por ocasião das comemorações do 8 de Março, para lá das lutas desenvolvidas sectorialmente – relevo para a da Função Pública – e por empresa. Dir-se-ia que a central entrou numa espiral de urgência em face da gravidade das medidas preconizadas pelo Governo num já chamado Pacote de Exploração e Empobrecimento e da situação real em que muitas famílias já se encontram.
A multiplicação de acções, ao contrário do que os comentadores vão ter tendência para dizer, não é um teste à capacidade de liderança da CGTP nesses protestos, nem à sua capacidade de mobilização, nem sequer saber se a nova estrutura directiva da central está a seguir um caminho estrategicamente correcto, embora se possa ir por aí na análise.
O que vai estar em jogo é outra coisa muito mais importante e relevante do ponto de vista social, designadamente saber o ponto em que nos encontramos enquanto sociedade solidária, atenta, interventiva, capaz de sofrimento para lutar por um destino que não está traçado mas por traçar. Por outras palavras, saber em que medida o medo já não está a paralisar a acção e se a clivagem social não está já a cavar um fosso entre os que, em desespero, já admitem a violência e os que, paralisados, condenam as formas de luta, justificando o seu medo pela inutilidade das mesmas.
O problema que se coloca já não é saber se a população está descontente – disso não me parece que haja muitas dúvidas – mas se acredita nos mecanismos democráticos para ultrapassar os bloqueios ao desenvolvimento e crescimento económico patentes numa política de austeridade cega, incapaz de ver para além das receitas da troika, sobretudo na vertente em que esta ataca os rendimentos e direitos dos trabalhadores por conta de outrém.
Por outras palavras, é o estado em que a democracia se encontra que está verdadeiramente em jogo. Se as pessoas acham que o salário de um dia de trabalho não justifica o exercício de um direito democrático indispensável para a afirmação de uma ideia, de um pensamento ou de um sentimento, estamos mal. E este mal tem raízes fundas no autismo dos poderes para com a voz do povo expressa nos mais diversos fóruns e não só na rua. Não basta dizer que respeitam o direito à greve e à manifestação, é preciso tirar ilacções desses acontecimentos. É assim que se reforça a democracia.
Baixos níveis de adesão poderão colocar o Governo em estado de euforia mas, a menos que não gostem do sistema democrático em que vivemos, será uma vitória de Pirro, porque o que as pessoas estão a dizer não é que concordam com as suas políticas, estão a dizer sim que não acreditam nos mecanismos democráticos para as alterar e que o actual sistema democrático que gerou a crise, mais os seus protagonistas, não são regeneráveis. É meio caminho andado para soluções mais fascizantes. E isso sim, é preocupante.
Como preocupante é a clivagem entre os povos do sul e do norte da Europa que só agravam o ressentimento. Uma coisa é dizer que somos todos gregos por solidariedade, outra coisa é dizê-lo por oposição aos alemães. A multiplicação de lembretes dos crimes nazis não auguram nada de bom. Seria desejável que os responsáveis alemães tivessem consciência do que andam a fazer à Europa e do que andam a dizer para consumo eleitoral interno, porque há caminhos que são perigosos. A artilharia verbal pode-lhes rebentar nas mãos. Até por isso, a manifestação de dia 29 convocada pela Confederação Europeia de Sindicatos deveria ter um caracter simbólico de unidade e solidariedade entre os povos trabalhadores, já que os que nos governam já mandaram essa solidariedade às malvas.
É claro que, tal como das outras vezes, vamos ter aqui uma retórica de que o que o país precisa é de trabalho e não de greves e manifestações. Provavelmente, até vamos ter contas a informar-nos dos prejuízos que o país teve a fazer greve. Mas, valia a pena fazer contas também aos prejuízos que sucessivas políticas erradas tiveram no desenvolvimento do país, em momentos em que a retórica era a mesma.
É verdade que uma manifestação ou uma greve geral não resolvem, por si só, nada no imediato, mas são sinais enviados ao poder nacional, à União Europeia, ao FMI, aos deputados da nação, a todos os que tiveram medo ou, por convicção, não acreditam em lutas desta natureza, aos que sofrem, aos que pouco ou nada têm, aos desempregados e inactivos, a todos, de que as fatalidades só existem nas vozes dos fadistas e que o destino está nas nossas mãos. Enfim, não estamos sós.
E, já agora, uma nota final para a UGT. Como é que aceitam, em silêncio, a quebra dos compromissos assumidos com a subida do Salário Mínimo Nacional – Governo, patrões e ambas as centrais assumiram-no – e assinam um pacote que não tem nada, mas rigorosamente nada, a favor daqueles que representam? Como é que é possível? Se têm outra estratégia não se percebe qual é. Porque, como em política o que parece é, o que parece é que a UGT está de acordo com esta política de austeridade que ataca sobretudo os que menos têm, sem uma perspectiva clara de retorno à situação anterior, antes a ideia de irreversibilidade. De resto, a ideia de que é necessário um empobrecimento generalizado porque não podemos viver acima das nossas possibilidades foi discurso frequente e justificativo de muitas acções e medidas.
O grande erro, entre outros, das medidas tomadas assim que estalou a crise de 2008, tem a ver com o afastamento dos cidadãos como parte da solução. Os cidadãos foram sempre considerados como causadores, culpados e por isso tinham de expiar essa culpa. Muita gente embarcou nessa retórica. É claro que nestas coisas nunca somos nós a viver acima das nossas possibilidades, são sempre os outros. E é com perplexidade que vemos quem tem vivendas em Cascais a criticar os que se endividaram para comprar um T1 no Cacém, quando o seu emprego na fábrica estava por um fio – só que o infeliz não sabia que a administração estava com um olho nas capacidades produtivas asiáticas para fazer a transferência.
Uma sociedade desigual, profundamente desequilibrada na distribuição do rendimento, é uma sociedade com tendência para ser uma sociedade desconfiada, pouco solidária e nada mobilizável para desígnios nacionais colectivos. Acentuar as desigualdades, como se está a fazer, é impedir a contribuição de todos para o esforço necessário à recuperação nacional. Porque ninguém nega a necessidade de um esforço, ninguém nega a necessidade de trabalhar mais e melhor, ninguém nega a urgência de investimento na modernização e no empreendedorismo – pronto, usei o palavrão!, está dito – mas ninguém estará pronto para os sacrifícios se achar que não estamos todos no mesmo barco. E a verdade, é que não estamos. Uns vão de paquete luxuoso e outros de piroga, movimentada á força de braços e remos. Assim, não é possível.
Vai caber agora à esquerda parlamentar apontar novos caminhos, de forma clara e inequívoca, para que ninguém se sinta perdido em protestos sem alternativas. E cabe ao PS assumir uma oposição clara, sob pena de ficar para sempre associado ao desastre. É que a questão do acordo da troika já está ultrapassada. Já estamos no patamar acima, na renegociação que permita uma política de crescimento.
E, depois disso, se se confirmarem as vitórias de Barack Obama e a derrota de Sarkozy, será bom que o capitalismo se repense, porque há paradigmas que mudaram com a globalização e um funcionamento em roda livre dos mercados financeiros. E nessa medida, é quase certo que a grelha de análise marxista estará de novo em cima da mesa, não para a aplicar, isso seria exigir demais aos instalados no poder, mas para entender os mecanismos que fazem mover as sociedades.
Depois de tudo isto ainda acha que uma Greve Geral é apenas uma Greve Geral?
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